EXP EDITION e a polêmica da apropriação cultural: no fim das contas, o que é k-pop?

Se você aí ainda não sabe, o tão temido e já odiado EXP EDITION debutou no começo dessa semana. “Mas MAIMYU, eu tava bem longe das tretas do k-pop e não faço ideia do que seja esse danado de dormirnãodaEXP EDITION nem do por que dele já estar sendo hateado!!11!!1!!”. Bem, pra dar uma booooa resumida, ele é um grupo de k-pop onde todos os integrantes são americanos… é, poisé.

Como não podia deixar de ser, isso daí tá levando uma discussão bem calorosa entre os odiadores do grupo e os seus apoiadores que vai desde apropriação cultural até se é justo chamar esse um grupo de k-pop como o próprio vem se nominando.

Mas por que eles não poderiam ser chamados de k-pop? Calma aí, o que é k-pop no fim das contas? Chega aqui pra a gente dar uma pensada nesse assunto e concluir se dá mesmo pra chamar o EXP EDITION de um grupo de k-pop.

Pensando rápido, k-pop não é nada mais que um gênero musical específico, certo? Mas será mesmo?

Bem, gênero musical é basicamente uma forma de categorizar músicas pra que a gente possa identificar qual é a sonoridade/forma/escrita de cada música. Quando temos canções que tem esses 3 elementos muito similares, elas são colocadas dentro de um grupo x que vai receber um certo nome (rock, blues, eletrônico…) pra que a gente possa ter contato com a música de uma forma mais metódica e objetiva, pra a gente achar o que curte fácil.

Tendo dito isso, pra se entenda k-pop como um gênero musical ele precisa ter características muito similares entre si que nenhum outro grupo de músicas já categorizado tenha. E o que o k-pop tem de diferente a oferecer além de trot (que já é um gênero musical sozinho) e – sendo bonzinho – white aegyo (aegyo coloridinho a gente tem aos montes no Japão e até da pra encontrar no próprio Ocidente)? A imensa maioria da sonoridade do k-pop vem direto do, adivinha só, Ocidente. E isso é por que k-pop é puramente pop, como o nome deixa escancarado.

As coisas ficam mais visíveis quando a gente percebe que pop é simplesmente música fácil de digerir: tem uma estrutura simples (versos/refrão/versos/refrão/bridge/refrão), que fala de temas que o povão curte (amor, sexo, festa), bastante repetição pra grudar na cabeça. Enfim, é como se fosse um modelo de música que torna ela mais comercial ao atingir muita gente. A sonoridade do Pop é uma coisa muito eclética justamente por muitos gêneros musicais terem capacidade de entrar nesse modelinho e funcionar bem. E o que a gente mais vê no k-pop se não isso?

Então k-pop é simplesmente pop? Sonoramente falando, sim. Claro que o k-pop tem umas coisinhas aqui e acolá que são mais peculiares sonoramente falando, mas a maioria esmagadora continua sendo pop ocidental feito na coreia.

Vendo dessa forma, o EXP EDITION tranquilamente pode ser chamado de k-pop, já que o gênero musical que eles cantam é o mesmo pop que o k-pop adora usar, certo? Bem… O k-pop ainda tem um diferencial, e a chave pra entender ele tá escrita no último parágrafo.

Pop ocidental feito da coreia. É nesse ponto que as coisas começam a se diferenciar. Surgem os exemplos onde a sonoridade tem suas peculiaridades conforme o mercado musical da Coreia exige (por mais que suas influências no pop ocidental ainda sejam bem perceptíveis) e o modus operandi da industria pop de lá acaba sendo muito diferente por ser uma outra cultura com uma outra vivência histórica.

A começar pela forma como os grupos de k-pop são formados. Há empresas coreanas que são preparadas pra receber pessoas que querem se tornar estrelas do k-pop (ou idols, pra os mais entendidos), que preparam essas pessoas em todos os quesitos necessários e formam grupos com elas. A origem desse modelo vem da época em que a Coreia estava em crise e viu que o investimento cultural seria uma das formas de escapar desse momento conturbado, passou a investir seu dinheiro nessas empresas formadoras de grupos de k-pop e boom, o k-pop chegou onde está.

Vocês já conseguem perceber a falha do EXP EDITION?

Bem, outra peculiaridade dos grupos de k-pop é a interação dos grupos com a industria de entretenimento coreana. Seja com programas de variedades, seja concorrendo a prêmiosapresentando programas ou apresentando-se na televisão, os idols estão lá interagindo com outras mídias coreanas pra poderem se promover melhor.

Há os clipes que são bem padrão no k-pop, com cenas de danças, closes nas caras dos integrantes e umas cenas bonitinhas aqui e acolá. Vez ou outra foge desse padrão e na maioria são bem inusitados e interessantes (as vezes inusitados e interessantes demais).

Também temos o formato dos grupos de k-pop que é bem característico. As vezes exageradamente grandes, com tarefas distribuídas pra cada integrante (líder, dancer, cantor, rapper…). Obviamente cantam em coreano, mas com um pouquinho de inglês aqui e acolá pra dar um ar mais popular. Tem o nome do grupo escrito com o alfabeto coreano pra nacionalizar mais o grupo. E… são coreanos?

Vocês sabem que tem inúmeros integrantes de grupos de k-pop que não são coreanos, e nem por isso eles deixam de ser idols de k-pop. Então não vejo como isso possa ser uma característica decisiva na hora de identificar um grupo como de k-pop ou não.

O negócio é o seguinte. O EXP EDITION é um projeto não-coreano, montado e idealizado fora da Coreia com o intuito de se ver até que ponto iam engolir americanos em um grupo de k-pop (percebam que a idealizadora desse projeto leva ele tão a sério que decidiu chamar a empresa desse grupo de “IM Making A BoyBand“) . Por mais que eles estejam incorporando tudo que faz do k-pop ser esse formato musical peculiar, é impossível não perceber o quão falho é chamar o EXP EDITION um grupo de k-pop quando se entende que, por definição, k-pop é um gênero que precisa ser produzido pela coreia.

Não importa se eles estão imitando o formato do k-pop perfeitamente, colocando os caras pra cantar em coreano, jogando eles em programas de variedade coreanos, fazendo com que eles aprendam a língua coreana, escrever o nome do grupo usando o alfabeto coreano, dando pra cada integrante uma função específica, fazendo clipes característicos do k-pop com eles. Isso tudo só faz desse um grupo com influências do k-pop que querem adentrar o mercado sul coreano, e não um grupo puramente de k-pop.

E se preparem que logo logo vai ser o Jayden Smith entrando pra a festa. Mas sobre isso a gente conversa mais tarde.

7 comentários em “EXP EDITION e a polêmica da apropriação cultural: no fim das contas, o que é k-pop?

  1. Acho que pode parecer besteira da minha parte, mas por algum motivo eu não consigo enxergar esses caras além de uma sátira ao kpop. Sei lá, a intenção deles é toda séria e tal, mas por algum motivo não me soa natural o que eles estão fazendo. Nem é por serem ocidentais, visto que tem a Alex no meio do RaNia e mesmo a empresa tratando ela como uma rapper que tá fazendo feat com o grupo, ela não soa estranha nem aleatória ali no meio. É meio complicado esse assunto, mas ele fez surgir um debate bacana

    Curtir

  2. Acho que o ponto está sendo o já famigerado assunto de whitewashing que tava aí rendendo até esses dias com Ghost In The Shell. Eu particularmente não ligo muito para como eles se denominem e criaria mais polêmica pela faixa e MV em si serem horríveis tentando emular todos os clichezões do K-pop (O fracasso já começa pela falta de identidade do grupo), mas enfim. Até que demorou para os States começarem a investir no seu próprio K-pop, mas assim como Ghost In The Shell, parece mais uma coisa que a fanbase internacional vai dar várias fodas enquanto a local (Na qual, teoricamente, deveria se sentir ofendida com a coisa toda) está cagando pra tudo.

    Curtir

    1. Nesse caso eu nem ligo muito pro white washing por que a intenção da moça que fez esse grupo (que é uma estudante de artes que decidiu criar esse grupo como um projeto de artes) era justamente ver como ficariam os americanos dentro do k-pop (alguma coisa sobre a visão que uma nação tem sobre masculinidade enquanto outra nação tem outra) e como seria a reação do pessoal com isso. Não vejo como isso tem capacidade de formar um problema generalizado por que esse grupo aí vai fazer nem cosquinha na Coreia como tu mesmo falou.
      E olhe, eu nem me dei o trabalho de ver esse clipe hehehe. Fiquei sabendo deles num vídeo que falava sobre a situação toda e só precisei disso pra ter uma noção de tudo o que tava acontecendo. Me dei nem o trabalho de dar view pra o produto desse To Fazendo Uma GarotoBanda que plmdd né, só ia fazer eu cringear.

      Curtir

      1. AI NÃO ACREDITO QUE ESSE GRUPO É SÓ O TCC DE UMA GURIA KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Ai gente achei icônico, merece a graduação só pela ideia genial

        Curtido por 1 pessoa

    1. Eu nem me dei o trabalho de ver isso logo depois de saber do que se tratava, o cringe era iminente e não tenho paciência pra isso. Mas achei interessante a discussão da galera sobre o quão k-pop é isso. Enfim, além dessas coisas, eu to bem foda-se pra esse grupo também.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s